quinta-feira, 7 de abril de 2011

Há dias

Há dias em que tudo está maravilhosamente bem, e a gente faz questão de transformar o mundo e deixá-lo colorido como a gente se sente.

Há outros, e esses são a maioria, que as coisas estão normais, e a vida vai seguindo seu curso.

Há dias péssimos, que o melhor é nem olhar pro mundo. Ou o mundo consegue estar em um dia melhor que o nosso, e nos traz um pouquinho de ânimo.

E há os dias em que tudo deveria estar ok, o mundo parece estar no lugar, o sol até está onde deveria, tem até cor no caminho - e nem é preciso fazer esforço algum pra perceber isso, e mesmo assim, alguma coisa está fora do lugar.

Dia de lembranças, de aperto no coração, de alguma coisa que não encaixa. Dia de fazer de conta que está tudo bem, até porque não se sabe dizer o que não está bem. E porque, de verdade, não há razão para isso, porque a razãozinha que teima em se levantar lá nas profundezas, já não deveria existir há algum tempo.

Há dias...

terça-feira, 1 de março de 2011

Quem cuida de quem?

Imagine-se na seguinte situação: um dia de chuva pesada em São Paulo, vários e simultâneos alagamentos, congestionamentos, acidentes, resgates. Apesar do caos e parecer a alvorada de 2012, fim dos tempos, mas no fundo não é nada mais do que já não tenhamos nos acostumado a achar normal nesta cidade. São Paulo transmuta-se do encanto ao horror em questão de segundos - ou milímetros de chuva.

Pergunte-se agora o que acontece às pessoas que, ao contrário de nós, não estão presas em congestionamentos, ou em algum outro lugar desejando ir para casa. Pessoas que não tem para onde ir, que moram nas ruas, e, com o caos instalado, dependem das ações públicas que deveriam existir para isso. Pois é, deveriam, do verbo "não tá rolando". Dá pra entender?

Ontem, domingo, por força do acaso, me deparei com uma situação dessas. Tropecei em dois garotos, de aproximadamente 11 e 14 anos, fugidos de casa e vivendo na rua há cerca de 8 dias (e não é a primeira vez), escondendo-se da chuva. Ambos ardiam em febre. Visivelmente cansados, pediram ajuda. "Tia, tô com febre, não quero dormir na rua hoje. Não aguento mais."

Até então, eu, na minha ingenuidade polianística, achava que a parte mais difícil em lidar com meninos em situação de rua tinha passado: os meninos, sempre tão arredios, se aproximaram por vontade própria. Agora era encaminhá-los através da rede de assistência social. Ledo engano.

Tentei os telefones de plantão do Conselho Tutelar da minha região: caixa postal. Tentei os da regional mais próxima.
- Não é a minha região, não posso fazer nada. É menino de rua? Chama a polícia que eles levam.
- Não meu senhor, não se trata de caso de polícia... são duas crianças febris, que precisam de...

Tu-tu-tu-tu... Bateu o telefone na minha cara.

Samu? Bom, a cidade está um caos, mas não custa tentar.
- Os meninos estão desacordados? Respiram normalmente? Há sangramento, cortes, sinal de fratura? Senhora, não há previsão de atendimento, isso não é uma emergência, não posso dizer quando o chamado será atendido. Aconselho que chame a polícia, já que são meninos de rua.

Chame a polícia. Alguém está vendo algum caso de polícia aqui?

Toca a procurar os telefones de atendimento da prefeitura de São Paulo. Na página da Secretaria de Assistência Social, nenhum dos números informados atende; tento o 156, sou transferida para a CAPE, o telefone chama até cair. Não existe plantão de atendimento social nesta cidade??? Começo a buscar pela CAPE no google, combinando várias palavras, até chegar à página Guia de Direitos (ótima, por sinal), que trazia mais informações do que o site oficial da prefeitura, e o número correto do telefone da CAPE.

Sou atendida na primeira chamada. Mas, para conseguir o atendimento para os meninos, preciso informar uma série de dados, como nome completo, idade, data de nascimento, nome da mãe... Ei??? Como assim??? Sem os dados não é possível abrir um chamado. Ok, ok. Vou conversar com os meninos, ver o que consigo descobrir deles, e volto a chamar a CAPE. Enquanto isso, fico pensando qual será o significado de direito universal - se é universal, não deveria perguntar sequer o nome de quem o reclama...

Com os dados informados, recebo outra notícia: os meninos devem aguardar na rua, próximos ao endereço que informei, para serem recolhidos.
- Sim, eles estão aqui comigo, neste endereço, um local público, aguardando.
- Não, senhora, eles deve estar na rua, no passeio público, senão não podem ser recolhidos. O serviço é para quem está na rua.
Ããhhhh??? Será possível que tem de ser tão literal assim? Chove, e muito, e são duas crianças com febre, doentes. Mas elas têm de estar na rua, literalmente.

Vou eu para a calçada, e aguardo por 40 minutos. Nem sinal do carro que deveria vir. Ligo novamente e sou informada: não há vagas em abrigos para menores, não será possível buscá-los. Claro que não há vagas, a prefeitura de São Paulo vem fechando sistematicamente albergues e abrigos na cidade. Mas, o que se faz nesta situação?
- Não podemos fazer nada, senhora. Continuaremos buscando, mas já aviso que as chances são mínimas. Tente a polícia, talvez eles possam passar a noite em uma delegacia.
Ah, eu juro que eu não ouvi isso...

Penso nos 20 anos do ECA, dos primeiros artigos que garantem a proteção das crianças pelo Estado e pela sociedade, e me dou conta que realmente eu não me livrei da minha Síndrome de Poliana. Minha ingenuidade beira a burrice. Alguém tem o celular do Kassab?

Consigo contato no celular de plantão do Conselho Tutelar da região. A conselheira dispõe-se a buscar os meninos, e, depois de mais de uma hora, chega com outra conselheira, para levá-los a uma casa de passagem. No dia seguinte, segundo me informaram, uma assistente social entraria em contato com a família, e faria os encaminhamentos necessários.

Tudo isso começou por volta das 17h30, e estendeu-se até depois das 21h. Mobilizei várias outras pessoas durante este tempo, que se revezaram ao telefone, buscaram soluções, informações - que não estão onde deveriam, enfim, que cumpriram o seu papel. Os meninos estavam tão cansados e febris, que não se opuseram a nada, apesar de desconfiados e reticentes. A única coisa que me falavam, o tempo todo era "tia, você não vai chamar a polícia, vai? A gente não fez nada, por favor!". E a resposta comum vinda de todos os lados, de uma suposta rede de atendimento era "chame a polícia".

Atendimento a menor em situação de risco é caso de polícia?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Entre linhas e agulhas, uma mãe e uma filha

Passei um final de semana costurando com a minha mãe.

Passamos três dias às voltas com tecidos, moldes, linhas, aviamentos. Escolhendo modelos, conferindo medidas, adequando a fazenda ao corte escolhido. Eu escolhia, ela ponderava, eu tirava o molde, ela aprovava.

Cortar o tecido é com ela, que faz isso com uma facilidade invejável. Diz que aprendeu a costurar sozinha - eu acho que ela apenas descobriu como costurar, porque no fundo já o sabia. Conferir todas as indicações e receitas é comigo, que, segundo ela, entendo mais rápido, antes de terminar de ler.

Eu cresci vendo minha mãe entre os tecidos e as linhas, a máquina de costura e os moldes, o giz de alfaiate e a fita métrica. Sempre achei este mundo fascinante. Construía minhas casinhas embaixo da máquina de costura, uma Singer pretinha, de pedal, e colocava minhas bonecas para balançar na correia da máquina, com todo cuidado para não desenroscá-la da roda. Dos retalhos, minha mãe fazia roupas de boneca maravilhosas, vestidos de gala, fantasias de carnaval, adereços para a casa - eu tinha as bonecas mais bem vestidas do mundo. E ansiava por conseguir, com as minhas próprias mãos, alinhavar alguns pontinhos tortos e dar forma a uma minissaia ou um gorro para uma das minhas filhas.

Minha mãe me diz que cresceu costurando para nós (eu e meus irmãos), e, mais especificamente, para mim, sua primeira boneca de verdade. Foi do desejo de vestir a bonequinha preta que as mãos foram ficando mais ágeis, os pontos mais precisos, a tesoura mais certeira. Dos retalhos que fizeram roupinhas para ficar em casa, ao vestido de gala da formatura, foram anos de aprendizado e apuro.

Neste final de semana, que ficamos as duas às voltas com este fazer tão familiar e corriqueiro dentro da nossa casa (nossa é modo de dizer; eu já sou visita há tantos anos...), percebi o quê costuramos ao longo destes anos todos. Na relação que construímos, de cumplicidade e respeito, nos descobrimos duas mulheres muito diferentes, em muitos aspectos. São sonhos, desejos, impulsos, escolhas, leituras, que nos posicionam muitas vezes de lados opostos, ainda que em uma mesma estrada. Mas, apesar disso, é como se a linha da bobina, da costura que corre pelo lado de baixo, não fosse nunca cortada: ela segue para lá e para cá, ajuntando os vários retalhos, por vezes quase incompatíveis. Mas isso só é possível porque são feitos da mesma matéria, do mesmo fio, da mesma partida da fábrica.

Adentramos as noites, com o pretexto de costurar, e pudemos ter tempo para confidências, atualizações, consentimentos e considerações. Entre uma e outra escolha, pudemos reconhecer, uma na outra, aquilo que sempre esteve ali, e que faz esta relação tão especial, ao mesmo tempo sólida e delicada.

Uma colcha de retalhos, um patchwork, com várias técnicas envolvidas, com recheio cuidadosamente trabalhado, quiltado com delicadeza, e com as costuras intermediárias rebatidas e reforçadas. Uma colcha daquelas feitas para durar a vida toda, com alguns remendos, claro, e ser repassada para os filhos, e os filhos dos filhos, e os filhos dos filhos dos filhos...

Acho que entendi porque gosto tanto de linhas, agulhas, tecidos e tramas.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Suspensão

Rio Paraguassu
Originally uploaded by canecalon



















Eu fugi.
Uma semana de suspensão no tempo.
Atendi aos chamados, os tambores cá fora, os tambores cá dentro.
Outro ritmo, outro tempo, quase outro mundo...
Parar, ouvir, me ouvir.
Entender o que se passa comigo, escapar do turbilhão daqui.
Tinha chamado sério...
Obedeci.
Agora voltei.
Até Oxalá sabe quando...

domingo, 16 de janeiro de 2011

tá me chamando...

o ano começou
os movimentos já começaram
há chamados que a gente adia
faz de conta que não escuta
ignora

até que não dá mais

tô escutando
dentro de mim

tambor, tambor, tambor, tambor...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Noite de Natal, quando se tem apenas quatro anos

Na noite de Natal
(por um menino do alto dos seus quatro anos e meio)

- Eu não vou dar presente de aniversário pra esse menino Jesus nada. Não quero.
- Por que T.?
- Ele nunca me convidou pra festa dele! Não dou e pronto!

***

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

balanços

Foi um ano de muitas mudanças. Muitas novidades. Cidade nova, casa nova, trabalho novo. Oportunidade de recomeçar, de refazer, de inventar.

Um ano longo, intenso, feliz - apesar de tudo.

Independência, acolhida, reencontros, descobertas. Encarar essa cidade enorme e dura sozinha, e descobrir em suas esquinas a doçura de se sentir em casa - mesmo que isso às vezes tenha sido à custa de lágrimas. Fazer novos amigos, e reencontrar antigos - amizades adormecidas, que só aguardavam para serem despertas. Aprofundar relações - e descobrir pessoas belas. Descobrir o amor, de uma maneira única - ainda que dolorido, e ter esperança na força do tempo.

O balanço de 2010 é bom. O ano foi ótimo.

Que venha 2011, com tudo o que tenho plantado. Eu confio na colheita.