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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um pedido de desculpas, do meu jeito torto. Arriscado.

Eu me arrisco com você, talvez mais do que já tenha me arriscado com qualquer outro.

É um risco inédito. Não dá frio na barriga, não me tira o sono, não me desafia a criar uma personagem. Desafia-me a ser eu mesma. Só eu. Sem máscaras, sem fantasias. Sair da minha concha, da minha muralha, e me deixar conhecer. Abrir a porta.

O risco de viver não uma grande paixão, na sua efemeridade louca, mas de construir o amor. Construir o cotidiano, uma vida a dois, um olhar para o horizonte. O chão, os pilares, o telhado.

O tempo, na miudeza dos dias. No saber esperar, saber escutar, saber abrir mão. A coragem de ser verdadeira, e admitir minhas fraquezas e defeitos - para poder compartilhar o melhor de mim, apesar dos meus piores. Lutar contra meu egoísmo, de querer ser objeto da sua atenção com a maior importância do mundo, e lutar contra as minhas frustrações de menina mimada, quando não tem seu desejo atendido.

A miudeza de todo dia, na beleza que se aprende a olhar e sentir. No bombom que surge no meio de um dia triste chuvoso, no carinho inesperado debaixo das cobertas, na prontidão para ajudar a esvaziar o copo, mesmo com o seu igualmente cheio.

Aprender que o amor não é romântico, mas prosaico. Viver a prosa do dia-a-dia, na intenção de torná-la poesia, ainda que de pé quebrado. Poesia concreta, que se constroi pedaço a pedaço. Coloca, volta, ajusta, troca a palavra, tenta de novo.

Cansa. Re-encanta. Chora. Brilha o olho.

Eu me arrisco com você, todos os dias. Desafio-me a ser uma pessoa melhor, para que você continue a querer se arriscar comigo também. Me percebo ridícula, chata - e me envergonho. Não te alcanço, às vezes.

Eu me arrisco, e gosto disso. Gosto de poder olhar o horizonte. Gosto de saber que o chão está debaixo dos meus pés. Dos nossos pés.

Gosto de dizer "a gente".

Eu me arrisco, muito, e estou feliz por isso. Eu ainda não sei nada sobre tudo isso aí - estou aprendendo com você. Vou errar muito, muito mais do que já tenho errado.

Espero que você queira seguir neste risco também.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Amores possíveis

Eu não sei se acredito em amor eterno, ou alma gêmea. Em pessoas que nasceram uma para a outra, e que o destino as coloca frente a frente, em algum momento da vida.

Talvez isto seja verdade para algumas pessoas. Talvez venha a se tornar verdade para mim, em algum momento.

Eu acredito em amores possíveis. Em encontros especiais, pessoas incríveis, momentos únicos. Marcas, dobras, fissuras, ranhuras: o amor se fixa assim, no corpo, na alma, no coração da gente.

Por vezes, me pego com saudades de um amor vivido. Nem sempre a saudade é da  pessoa. Parece estranho, mas é exatamente isso: a saudade é daquela pessoa, naquele momento, com o que eu era neste conjunto. Não adianta reencontrá-la. Vai ser outra história - que pode ser tão especial quanto, mas será outra.

Chega a ser engraçado, porque alguns destes amores eu reencontrei muito tempo depois - e me pareceram pessoas estranhas. Como pode, tanta intimidade se transformar em indiferença? Mistérios da vida humana.

Outros amores passaram a ser amor brando, quentinho, e ocupam lugar cativo dentro de mim; são mais do que marca. Amores despudorados, sinceros e intensos, que se transformam em carinho. Admiração, amizade, vontade de intimidade.

Ainda tenho em mim amores que são sensações de desejo, que não foram esgotadas. Não é saudade, é outra coisa. É amor com vontade, com respiração, com curiosidade. Não sei qual o nome disso. Sei que estes amores me impulsionam para a vida, para vivê-los, ou me permitir buscar novos encontros.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Férias 2011 - devaneios no caminho (I)

Sempre viajo com uma caderneta. Quando se viaja sozinha, é preciso ter com quem compartilhar pensamentos.

No terminal rodoviário do Tietê, enquanto aguardava o ônibus para o Rio de Janeiro, rabisquei as seguintes linhas:

"23/09/2011
Início da Primavera.
Novas férias, novos destinos, novas viagens.
Cá estou, na rodoviária do Tietê, esperando o ônibus para o Rio de Janeiro. Um bando de adolescentes atrás de mim fala do Rock'n'Rio que eu, espertamente, ignorava até ontem - dããã...
Meia hora atrás eu pensei em embarcar diretamente para BH, e ignorar esta passagem pelo Rio, mas fiz um uni-duni-tê e o Rio ganhou, Na verdade, fiquei tentada em tirar a sorte na bilheteria e embarcar sem rumo, sabe-se lá para onde. Um dia ainda faço isso...
Viajar, para mim, é sempre adentrar em outra vibe. É como se eu me despedisse do mundo, das pessoas que amo, fizesse as últimas coisas importantes, antes de seguir. Há sempre o risco de não voltar. Sigo aberta às possibilidades, aos encontros, às descobertas, ao desejo de mundo. Umas vezes mais, outras menos, mas sempre com este desejo.
Este ano não tenho o cansaço nem a ansiedade das outras vezes. Parto, antes de tudo, para um encontro comigo. Quero saber onde estou EU, que tenho por tantas vezes me desconhecido.
Parar e escutar, é esta a ideia."

quinta-feira, 26 de abril de 2012

a vida à espreita da vida

E o silêncio e a recolha se fazem necessários, mas vão assumindo outros significados.

Como se uma gestação se encaminhasse, como se o tempo estivesse prenhe - de forma ainda indefinida. A terra não sabe como se deu a fecundação.

Há desejos que tentam ser assumidos, há ideias, há movimento. Forças antagônicas e ao mesmo tempo concêntricas.

Um útero que se resguarda, que aguarda. Alma de bituca, de tocaia. À espreita.

Quarentena.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

arqueologia de mim mesma (II)

Do grego arkhaiología - história relativa à antiguidade.

Tratando-se da história relativa à antiguidade, posso portanto, tratar da antiguidade relativa ao sujeito histórico. No caso, eu, e a antiguidade que cabe em mim.

Neste exercício de arqueóloga, nesta brincadeira de descobrir vestígios, tenho encontrado espelhos, e tento reconhecer-me neles. Mas só encontro espelhos quebrados, pedacinhos, e sou obrigada a me ver fragmentada. Nem sempre a parte representa o todo.

Surgem, nos pedacinhos dos espelhos, pedaços de mim, de alguém que eu fui-sou-serei, mas ainda não conheço - ou esqueço.

Quebra-cabeça de lógica oculta, ainda não descobri a chave para resolver o desafio.

Vou seguindo, trocando a enxada pelo pincel, a máscara pela lupa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

arqueologia de mim mesma (I)


Acho que estou fazendo uma arqueologia de mim mesma. O que procuro? Ainda não sei. Mas estou no processo de busca.
Ainda estou estudando o terreno, examinando o material. Ainda nem cheguei no pincelzinho, nas peças.
Mas vou com cuidado. Sou desastrada demais pra sair com a enxada em punho; vou fazer buracos maiores do que o necessário, acertar peças frágeis.
Dizem que tudo isso é culpa do tal retorno. Culpa de Saturno.
Com ou sem culpados, sigo eu brincando de arqueóloga.
Vamos ver onde isso vai dar.

**********
Oficina de Brinquedos e Brincadeiras

Sexta-feira. Chegamos à uma nova escola. Por fora, muito parecida com a da semana anterior. Por dentro... quem é que sabe? Pego minha caixa de materiais, minhas varas de pesca e vou descobrir onde fica a sala com a qual vou trabalhar. Pelo caminho, olhinhos curiosos querem saber quem são essas pessoas que chegam com tantas coisas, com tanto barulho, e se dirigem apressadas e aos risos pelos corredores da escola. Tudo o que esses olhinhos sabem é que hoje vai ser um dia diferente.
Isto também sei eu. A cada semana, um novo planejamento se impõe: crianças em maior ou menor número, com idades diferenciadas, espaço mais ou menos amplo, realidades sociais distintas. Ao longo das dez semanas, vou me dando conta que o planejado é apenas um ponto de partida, e que é imperativo estar aberta às mudanças possíveis. Algumas vezes o tempo é muito, mas na maior parte delas, passa voando! Também era assim quando eu era menina; o tempo de brincar sempre acabava logo... E brincar nunca tem regra: sempre surge uma nova brincadeira, uma nova possibilidade, uma outra vontade... É difícil ser o adulto e ter de se lembrar do relógio, dos combinados...

“Com licença, professora, posso entrar?” “Tia, pra que essas varas? A gente vai pescar? Mas aqui na escola não tem rio!” “Ai, sua boba, ela sabe disso, né?” “ A gente vai brincar? Do quê?”.

Ovo choco/ está rachado/ quem rachou/ foi a galinha/ corre cutia/ na casa da tia/ corre cipó/ na casa da vó/ lencinho branco/ caiu no chão/ posso pôr?/ pode, sem demora/ na panela de amora/ um, dois, três/ fecha o olho de uma vez/ que não é a sua vez!/ Inglês!
(lá na rua 23!/ Chinês!/ Japonês!/ Espanhol!)

Arrastar as carteiras, fazer uma roda. Às vezes é bem fácil, noutras um pouco mais difícil; depende da turma, do horário. Crianças calmas, tranqüilas, agitadas, irritadas, felizes, espontâneas, tristes, acuadas. Em dez semanas, um universo inteiro. Em alguns minutos, uma pincelada das cores que pintam aquele espaço diariamente,

Lá em cima do piano/ tem um copo de veneno/ quem bebeu morreu/ o azar foi seu!

“Distribui os copinhos pra mim? Dois para cada um.” “Professora, o que vamos fazer com isso?” “O que vocês acham?” “Carrinho! Telefone sem fio! Óculos! Alto-falante! Tomar café!”
 

Para fazer o ioiô, é preciso a ajuda do companheiro, e é preciso esperar que a fita colorida que se escolheu chegue às suas mãos. Quando digo isso, as professoras me olham incrédulas, achando impossível que as crianças esperem. Com um pouco de paciência - muito mais dos adultos em esperar que as crianças se organizem sozinhas, do que delas próprias -, o trabalho vai caminhando; é muito mais fácil e divertido fazer junto. Nas salas em que há crianças especiais, a ajuda é sempre espontânea, mas sem exageros; eles sabem a medida. Fazemos o ioiô, e a grande farra é aprender a lançá-lo, brincar em frente ao ventilador ligado, descobrir outros movimentos possíveis. Não digo o nome do brinquedo de propósito, e as crianças começam a nomeá-lo: pião voador, ioiô, disco voador, carretel, aviãozinho, helicóptero.

O caminhão de laranjas passou por aqui?/ Passou./ Quantas laranjas você comprou?/ Cinqüenta mil! (risos) Tá bom, vai... Oito!

Alguém entrega duas tampinhas para cada um, um pedaço de barbante; as tampinhas já estão furadas. Peço às crianças que passem o barbante pelos furos da tampinha como suas mães fazem para pregar botão, e eles acham graça. Na hora de dar o nó, descubro que muitas crianças ainda não sabem amarrar. “E quem amarrou seu tênis antes de você vir pra escola?” “Meu tênis não tem cadarço!!! (risos)” 

Antes que todos terminem, algumas crianças já descobriram o brinquedo e estão mostrando às outras como se faz . Conto que o corrupio é um brinquedo muito antigo e que, com certeza, seus pais e seus avós brincavam com ele também. Ouço risadas e carinhas espantadas me indagam: “minha mãe brincava???” 


Percebo que o movimento do corrupio não é tão simples para as crianças menores, e descubro que não sei como lhes mostrar... começo a brincar com um por um, passando para suas mãos enquanto ainda gira, quem sabe assim eles conseguem continuar... com alguns dá certo, com outros não; tenho que ser insistente e cuidar de não passar a minha ansiedade para o menino que apenas espera o momento de aprender. Elas se ajudam e, no fim, todos conseguem. Há as que se encantam com o zunido, outras se deliciam em ver o barbante se comportar como um elástico. Duas meninas tranformam o corrupio em vai-vem. Outras fazem dele colar, e quase todas as crianças fazem o mesmo.

“E as varinhas? A gente não vai brincar com elas? O que a gente vai fazer? Vai levar pra casa? Cadê os peixes? A gente vai pescar?”

Pegamos as folhas de jornal e começo a explicar a seqüência de dobras. A cada nova dobra, um novo brinquedo se configura: um leque, uma manga de paletó, um chapéu de cozinheiro, o chapéu do Papa, um peixe com uma enorme boca. Elas inventam rabos das mais variadas formas, e começam a dar vida a cada peixe. Surgem peixes com cabelos, línguas, olhos, barbatanas... “peixas” com laçarotes, cílios compridos, bochecha pintada...

“Vou fazer uma peixa!” “Mas você é menino, não pode!” “Por que não? Tia, eu posso fazer uma peixa?”

As cores vão aparecendo, tímidas em alguns brinquedos, explosivas em outros. Alguns delicados, com pedacinhos pequenos de crepom que vão compondo mosaicos coloridos no corpo do peixe. Outros, com largas tiras sobrepostas e franjas que voam com o vento. Corações, a letra do nome, a bandeira do Brasil, figuras geométricas, escamas multi-coloridas...

“É um peixe-pipa! É um pipa!!!”

Com a ajuda da professora, vou amarrando os cabrestos e prendendo os peixinhos nas varas de pesca. As outras salas também já estão finalizando,e a quadra da escola vai, aos poucos, sendo povoada de cores e franjas, coloridos peixes voadores que ocupam o céu. Com eles, os desejos e sonhos das crianças voam juntos, empurrados pelo vento típico desta época do ano...

“Tia, você vai voltar? Amanhã você vem? Ah, não vai embora agora não, vamos brincar mais!”

Fim de mais uma oficina. Enquanto guardo meus materiais em minha caixa, vou guardando em mim o olho que brilhou ao ver seu brinquedo pronto, o rostinho sapeca rindo do som do corrupio, cada um dos beijos carinhosos que recebi, e os olhares de cumplicidade no momento da brincadeira, que só quem brinca de verdade compartilha. E essa é a melhor parte.

**********
Este texto foi publicado em um caderno do Instituto Tomie Ohtake, em 2006. Gosto muito dele. Quando o leio, lembro da minha alegria em brincar com as crianças. Tenho sentido falta disso na minha vida.


domingo, 25 de março de 2012

terra, semente, outono

E, de repente, aquela sombra, aquela garoa começa a fazer sentido. A neblina parece querer dissipar-se.
Parece que o tempo do outono, que parecia inverno prematuro, começa, enfim, a preparar a primavera.
Tempo de escolhas de sementes, preparo da terra, produção do adubo. Tempo de escolhas... o que plantar?
Tirar a casca do solo, revolver a terra, descobrir que sementes dormem sob a folhagem seca.
Por que o jardim secou? Ele deixou de florescer, e eu nem me dei conta. E agora, como fazê-lo reviver?
Nada é exatamente como já foi... era um jardim desses de casa antiga, da roça, meio tudo-junto-e-misturado... com o passar do tempo, os gostos, o olhar, o conhecimento, tudo isso se apura, e o jardim será planejado.
Há que se olhar para a sombra e para o sol. Calcular o tempo necessário de cada um, em razão das espécies escolhidas. Será que dá para ter espécies tão diferentes no mesmo espaço? E as espécies pioneiras, que preparam o caminho para as outras, que serão definitivas?
Ainda é outono, e haverá tempo para tanta preparação. Só não há mais tempo para hesitação.
A terra está prenhe. E os olhos descobertos. 

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(foto extraída de http://www.flickr.com/photos/gadl/6813800836/in/photostream/)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Escrevo porque transbordo.
Um porção de sentimentos toma conta de mim, e eu já não sei mais nomeá-los ou diferenciá-los.
Pode ser que eu esteja carente demais.
Pode ser o cansaço, que beira o extremo, o máximo do que eu já experimentei.
Podem ser as cervejas, depois de tanto tempo de abstenção.
O fato é que transbordo, e já não sei nomear o que vai dentro de mim.

Por hora sinto-me triste, de tristezas alheias que me dominam. Queria ser grande para abarcá-las, forte para destrui-las, corajosa o suficiente para assumi-las. Não posso. Sou humana, e, como tal, covarde.

Sinto-me também diminuída, ego ferido, menosprezada. Nada que uma boa roda de samba não cure. Mas o carnaval está me dando trabalho, e preguiça. Muita preguiça.

Quero o mar. Ah, como eu o desejo.

Vontade de amar, e ser amada. Desejo de gerar. Filhos, projetos, realizações. Não consigo definir. Desejo de ser mãe, sejá lá do que for.

Pergunto-me se não estou agindo como uma adolescente mimada, e se não estou ignorando o meu papel no mundo. Mas não sei que papel é esse, que lugar é esse, a que eu vim, o que esperam de mim. Comporto-me, às vezes, como uma criança perdida. Outras vezes, como uma velha que se esqueceu de morrer.

Mal humor, euforia, entusiasmos, descrédito. Tantas variações, em tão pouco tempo. Horas.

Quero o céu. E a Lua. Cheia, redonda, imensa. E São Jorge, e o dragão. Eu os quero, inteiros, só para mim.

Se estou eu inteira, já não sei dizer. Sou pedaços, fragmentos, indícios. Em que parte da vida eu deveria estar? Alguém me responda, por favor, porque eu já não o sei

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Melancolia tem sido uma palavra muito presente em meu vocabulário, em meus pensamentos, em minha auto-percepção.

Fase, momento, necessidade? Não sei. Só sei que tenho uma vontade imensa de ficar sozinha, quieta, ausente. Parece que tudo faz barulho demais, um barulho à toa, um desperdício de energia.

A vida lá fora me dá uma preguiiiiiça...

Sinto-me às vezes como uma para-raios, uma antena parabólica desregulada, que capta tudo o que não é da sua conta. Sinto um cansaço e uma tristeza que parecem não ser meus, mas me afetam.

O mundo às vezes cansa.

E sei que, daqui há pouco, sem mais nem menos, este sentimento vai embora, eu fico radiante sem ter porquê, e ninguém sequer percebe.

Lua minguante, conjunção astral, hormônios, sei lá. Saudade, carência, desejo de colo, talvez. Só sei que o sentimento é esse.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Peixes

Por que eu acho que sempre faço as coisas do jeito mais difícil?
E quando eu não faço, o caminho mais fácil era ter feito...
Ai, alma pisciana!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ser chuva

Necessidade de transbordar, conjugando o verbo em todas as pessoas e seus tempos.
Eu transbordo, tu transbordas, ele transborda.
No presente, no pretérito perfeito, no gerúndio, no particípio.
Transbordando, sou eu.
No futuro, quem sabe? Transbordarei.
Esparramando, espalhada, repleta, para todos os lados.
Chovendo, pingando, respingando em quem se permitir.
Tempestade numa tarde quente de verão.
Roupa e cabelos molhados, colados no corpo, no rosto, nas costas.
Transbordada.
De mim mesma, que chovo, contrariando a gramática.
Chover é verbo impessoal.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A perfeição

O que me tranquiliza é que tudo o que me existe, existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete, não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Clarice Lispector, A descoberta do mundo.


Recebi este trecho de um amigo muito, muito querido, num momento de balanços difíceis na vida. E cada vez que o leio, faz um sentido diferente para mim. Obrigada, Chris.


Obrigada, 2011.

Foi, mais uma vez, um ano intenso. Como sempre, aconteceram muitas coisas, boas e ruins, e, graças ao bom Deus, o saldo é positivo.

Um ano para me encontrar com esta cidade, e me reconhecer nela. "Na dura poesia concreta de suas esquinas", no silêncio das maldades diárias, na beleza da gente que lota as ruas ricas e pobres, na fartura de cultura, na escassez de moradias. Reconheço-me, em todas estas variáveis.

Um ano em que muita gente foi embora, às vezes sem tempo de despedida. Tempos de saudades novas e saudade antiga, que doeu de um jeito que há muito não doía. De despedidas que se prolongaram ao longo dos meses, de forma dolorida, mas também tranquila.

Ano de conhecimentos e reencontros também. Com extrema alegria, abençoados por dona Iemanjá no dia 2 de fevereiro. Com tristeza sem tamanho, onde nem o perfume das flores poderiam aliviar o pesar. No acaso, no metrô ou numa esquina, ou ainda num comentário das redes sociais.

Ano de planos desfeitos, adiados para o outro ano que se inicia. De caminhos refeitos, para voltar ao ponto de partida, antigamente equivocado. De conquistas, algumas partilhadas, outras de foro tão íntimo, mas tão intensamente festejadas!

Um ano em que vivi o amor, livremente, em nome de mim mesma. Busquei a verdade, a intensidade, o sagrado entre dois corpos, dois espíritos, dois seres. Algumas vezes encontrei, noutras me decepcionei. Vivi, com a minha verdade. Encontrei o prazer, o carinho, a cumplicidade. A beleza e a alegria.

Ano de encerrar ciclos, alguns que erravam há tempos aguardando o seu fechamento, outros mais recentes, mas igualmente encerrados. Ano para perdoar, a mim e a quem aguardava pelo meu perdão - que o orgulho não me permitia fazê-lo, em ambos os casos.

Ano de estrada, de viagem, de descobrir e reaver caminhos. Eu segui por alguns deles, e outros vieram até mim, trazendo bagagens que eu já havia carregado - e tinha me esquecido.

Um ano em que algo dentro de mim mudou, e me faz sentir, de alguma maneira, mais velha - ainda que a moça do caixa peça meu documento para autorizar a venda de bebida alcoólica, e um moço gentil tenha me dito que aparento apenas 20 anos (sem os óculos de cdf). Em que percebi meus pais mais velhos, meus compadres mais velhos, e as crianças crescidas demais. Ano do retorno de Saturno.

Um ano em que o imponderável se fez presente, e eu tive de aprender a lidar com ele. Em que o ritmo alucinante da cidade quase me engoliu, mas eu resisti - eu acho.

Obrigada, 2011.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pra uma amiga muito, muito querida

Querida, querida, querida,

eu queria poder, de alguma maneira, fazer sua a minha dor. Mas sei que isso não é possível. Cada um de nós sabe o tamanho e o espaço que ela ocupa dentro da gente.

Mas posso ser solidária, e dizer que estou aqui, sempre, em tempo integral. Sempre estive, apesar da distância, dos silêncios, dos desencontros da vida.

Posso lhe dizer que essas dores imensas não se curam, não passam, como costumam nos dizer para nos acalmar. Mas posso lhe assegurar que ficam mais tênues. Transformam-se em saudade. Uma saudade que às vezes aperta o coração, mas que é suportável. Vai ficando suportável, com o passar do tempo.

Sei que você deve estar achando o mundo sem horizontes, a vida sem gosto, o coração sem desejos. Só o tempo, querida, só o tempo muda isso.

Mas tenho que lhe dizer que um dia, tudo isso passa. Quando a gente menos espera, o sol volta a brilhar, o coração volta a seus quereres, o mundo fica saboroso. Primeiro aos pouquinhos, depois intensamente. Haverá dias em que a gente pensa voltar lá pro começo da história, mas retorna pro presente, depois de alguns dias.

Permita-se. Ficar triste, ter raiva, desafiar o mundo, brigar com Deus. Até Ele entende, e perdoa. Trancar-se em casa, não atender ao telefone, não falar com ninguém. Tá tudo certo. Felicidade fingida, pra agradar aos outros, não existe. Quando cicatrizar, as coisas vão voltando para o lugar, aos poucos.

Eu fiquei anos sem rezar. Até que um dia, tive vontade. Simples assim.

Minha linda, minha querida: sonhei que brigávamos, por alguma bobagem, como sempre, por teimosia de ambas, só pra variar. Mas, nesta briga, éramos as mesmas meninas de dez anos atrás, que se entendiam apenas com uma troca de olhares, e confidenciavam as tristezas e alegrias sem sequer uma palavra. Que compartilharam medos e descobertas, numa época encantada. Sei que a dor que você sente hoje tem raízes nesta época, e por isso me sinto no direito de compartilhá-la contigo.

Um novo ano se inicia, minha querida. Que ele venha, com tudo o que merecemos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Leituras equivocadas

Desencontros.
Desentendimentos.
Sinais errados.
Leituras equivocadas.

Por que demonstrar carinho te ofende?
Por que só aceitar quando vem vazio?
Por que tanto medo?

Das suas inseguranças, você faz matéria para ofensas.
Dos seus fantasmas, você produz assombrações.

A cada movimento de aproximação,
dois de repulsa.

Agressão não é afeto.
Grosseria não é carinho.

Que segurança é esta que buscas no escuro?
Por que insistir em manter as carapaças?

Eu admiro a sua beleza.
Eu admiro a sua inteligência.
Eu admiro o seu humor refinado.

E apenas lamento que, ao tentar lhe demonstrar carinho, você tenha feito tantas outras leituras. Lamento que para você seja tão difícil aceitar que alguém possa gostar de você, sem nenhuma outra intenção. Apenas gostar.

domingo, 31 de julho de 2011

melancolia

Eu estou melancólica.

Irritada, mal humorada, esquisita. Estranha. Sem vontade de me encontrar com o mundo.

Tem uma tristeza, uma saudade, e um vaziozinho que me incomodam. Desejo de concha, de cantinho, de silêncio.

Melancolia.

saudosa saudade

Há períodos em que eu me estranho, me desconheço completamente. Fico assim por dias, semanas... é como se eu não fosse eu, se eu não estivesse aqui. Vontade de ficar quieta, em casa, sem ouvir música ou voz alguma, quieta. Quieta. As vozes dentro de mim não se calam quando eu peço.

Venho me sentindo assim há várias semanas, e os últimos dias foram mais difíceis. É que, somado à estranheza sazonal, uma mistura de outros sentimentos, intensos, se apoderaram de mim.

Minha avó dizia que "para morrer basta estar vivo". Esta verdade, talvez a maior da existência, a gente ainda não aprendeu a administrar numa boa. Cada vez que alguém se despede desta vida aqui, desta existência, algo em nós se desarranja, se desestrutura. Mesmo sabendo que é tão inevitável quanto tomar água, comer...

Estou saudosa de mim, no meu estado solar. Não gosto da melancolia, não sei conviver com ela.

Estou saudosa do meu avô, das suas traquitanas, das quinquilharias. Das longas conversas sobre suas ferramentas, da razão de ser de cada uma delas. Da chavezinha que ficava escondida, para ninguém bulir em suas coisas sem a sua permissão.

Estou saudosa dos meus 18 anos, e de uma festa, ingênua como aquele tempo, com bexigas coloridas e kits maioridade, promovida pelas pessoas que viveram intensamente esta época comigo. Saudosa do que fomos, daquilo que sonhamos, que vivemos, e que já não temos mais. Dos sentimentos que trazem lembranças doces, quentinhas.

Saudades que sentimos, que ficam em algum lugar dentro da gente, às vezes mais vivas, às vezes esmaecidas.

Escrito em uma noite de julho de 2011, em meio à insônia, e às tristezas decorrentes da falta de tempo para nos despedirmos de quem vai embora sem avisar...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

outono

faz frio
nas últimas noites, nos últimos dias
céu branco, sem cor
neblina, névoa

faz frio
dentro de mim
sensação de vazio, ausência
paladar sem gosto

sentimento de insatisfação
que nada completa
que nada define
fome, insônia, impaciência
desânimo

eu gostava do outono
quando eu não me sentia
fazendo parte dele

sábado, 14 de maio de 2011

saudades

saudades
das risadas que não ouvi
do sorriso que não se abriu
do choro que não acolhi
do colo que não pude oferecer
das pernas compridas, que não me permitiriam te carregar ainda hoje
das histórias que não contei
das cantigas que não cantei
dos bolos que não fizemos juntos
das bagunças, das brincadeiras

saudades destes seis anos
das letras que estaria ensaiando no caderno
das travessuras que já teria aprontado
e das muitas perguntas, que já teriam me deixado sem respostas

saudades de um mundo que seria diferente
da minha casa que seria outra
da minha vida, que estaria em outro lugar

saudades de você, pequenino
que mora em outro lugar
tão longe de mim
e ao mesmo tempo
tão presente aqui dentro

*para um menino que em apenas 8 meses mudou a minha vida para sempre. E lá se vão 6 anos...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Há dias

Há dias em que tudo está maravilhosamente bem, e a gente faz questão de transformar o mundo e deixá-lo colorido como a gente se sente.

Há outros, e esses são a maioria, que as coisas estão normais, e a vida vai seguindo seu curso.

Há dias péssimos, que o melhor é nem olhar pro mundo. Ou o mundo consegue estar em um dia melhor que o nosso, e nos traz um pouquinho de ânimo.

E há os dias em que tudo deveria estar ok, o mundo parece estar no lugar, o sol até está onde deveria, tem até cor no caminho - e nem é preciso fazer esforço algum pra perceber isso, e mesmo assim, alguma coisa está fora do lugar.

Dia de lembranças, de aperto no coração, de alguma coisa que não encaixa. Dia de fazer de conta que está tudo bem, até porque não se sabe dizer o que não está bem. E porque, de verdade, não há razão para isso, porque a razãozinha que teima em se levantar lá nas profundezas, já não deveria existir há algum tempo.

Há dias...